O Reacionário Musical #51: A Inegável Evolução do Fresno, Atinge Seu Auge.

Voltemos no calendário uns 10 anos. Ainda havia MTV Brasil comandada pela Abril, com seu convênio com o então selo da Universal, chamado Arsenal Music, comandada a mão de ferro por Rick Bonadio, hoje, definitivamente, assumindo a persona de uma espécie do sempre lamentável Simon Cowell em uma versão tupiniquim medonha, de um ”reality show” já bem desgastado em seu formato americano e britânico.

Era o início do estouro do emo, ou emocore, não só no Brasil como no resto do mundo. Aposto que alguns de vocês aqui, poucos leitores, chegou a escutar um Simple Plan choroso, um Good Charlotte revoltz (em tempo, um dos PIORES shows que já vi em todos meus 31 anos), ou a classe média de São Paulo, que tinha acesso a bons instrumentos, e estava ligada no que ocorria lá fora, já começou a aproveitar a porta escancarada que o CPM 22 havia já deixado, assim como nos EUA o Blink-182 e todo hardcore californiano já havia dado espaço a coisas como Dashboard Confessional e Jimmy Eat World, a petizada começou a se organizar com o apoio de casas de shows como o Hangar 110 (que anunciou sua falência esta semana), simpatia da MTV Brasil, onde pode ser muito bem vista no bom documentário Do Underground AO Emo, produzido pelo Canal Bis.

Haviam algumas banda que fugiam emo ”paulistocêntrico”, como o Forfun e Dibob do Rio, Strike de Minas Gerais, e o Fresno do Rio Grande do Sul.

Os anos foram passando, e com a derrocada financeira da MTV Brasil a partir de 2007, com o falido projeto MTV Overdrive, onde, arrogantemente, pensou-se em bater o YouTube, e Rick Bonadio tendo transformado Nx Zero e CPM 22 em pastiches pop punk que ninguém mais suportava, o Fresno estava no meio deste bolo, com canções descartáveis, arranjos esquecíveis, e letras ginasiais que dariam vergonha alheia a qualquer um. Mas algo mudou a partir de 2010.

No texto que muito me orgulha até hoje, sobre o lamentável episódio do suicídio de Champingnon do Charlie Brown Jr. eu havia dito que já havia passado da hora do rock brasileiro crescer. E Lucas Silveira e sua banda comandada junto a Gustavo Mantovani, perceberam isto após perderem um dos seus membros mais carismáticos, que foi ser guitarrista de apoio, durante um tempo de Humberto Gessinger. Lucas sob o pseudônimo Beeshop, lançou uma pérola pop em 2010 de rara beleza, The Rise And Fall Of Beeshop, muito acima da produção que sua banda estava fazendo à época, com justiça, digo que já havia dado alguns passos positivos, ainda sob a batuta de Bonadio.

Em 2011 sai o razoável, mas pesado EP Cemitério das Boas Intenções, o último gravado com Rodrigo Tavares no baixo, já indicava que algo mudava. Rompem com Rick Bonadio, e assumem integralmente as gravações do disco que viria a seguir. Infinito de 2012, calou a minha boca. Um disco com uma produção impecável, com uma distância anos-luz de tudo que se fazia no rock nacional no momento, com letras boas (ainda um tanto melosas é verdade), com canções excelentes como “Maior Que As Muralhas” e “Diga (parte 2)” com influência de Chico Buarque na composição. Um grande disco, que como 10 anos antes, Los Hermanos havia feito o mesmo com seu excelente Bloco do Eu Sozinho (que considero até hoje, uma obra prima do pop brasileiro), foi completamente boicotado, e viu seu público que era histérico, adolescente, ficar fiel e crescer.

2 anos após, Fresno lança o excelente EP Eu Sou A Maré Viva, com Lenine e Emicida cantando a faixa-título, novamente com influência de Chico Buarque . Mudam-se alguns músicos, como a saída de Bell Ruschel da bateria, a entrada de Thiago Guerra, a efetivação de Mário Camelo, e a contatação de Tom Vicentini, estabilizam a formação da banda, que ano passado comemorou 15 anos, com um bom show e dvd lançados.

Este ano, a crise que levou Paulo Miklos a preferir ser jurado ao lado de Bonadio, estava atingindo o rock nacional inteiro, a ponto de nossos roqueiros falecerem em hospitais públicos (como o inigualável Peninha, percussionista do Barão Vermelho), mostrava um cenário ruim para quem lançasse um disco, no meio da ditadura sertaneja do Governo Temer que faz parecer o sertanejo de Collor ser história da carochinha, Fresno solta ”A Sinfonia de Tudo que Há”, sem dúvida um dos melhores discos nacionais do ano, um pouco inferior a Infinito, mas ainda sim muito mais a frente que seus colegas paulistanos do NX Zero que cismaram que serão o Maroon 5 nacional, posto disputado com louvor com sempre lamentável Jota Quest.

Escute sem preconceitos, dê uma chance ao que, hoje é o disco de melhor produção nacional.

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