Análise M#59 – Procurando Dory e as Animações de Várzea

Eu gosto de desenhos e animações e raramente me recuso a ver algum, logo, acompanho bem de perto as mudanças nessa categoria, que confesso, não tenho curtido muito – mas é como dizem: “Opinião… “. Procurando Dory se encaixa nesse momento “pós-moderno” que as animações, em especial da Pixar, vivem.

 

Desde de Shrek a “galera do dinheiro” entendeu que esse tipo de filme é consumido também por “adultos”, o que gerou uma mudança de foco e roteiro nos longas. Isso é muito bacana, mas tudo tem um preço, né.  A vida segue, o tempo passa, e alguém resolveu que além desse novo foco, os filmes deveriam largar um pouco as aventuras e rumar para o cinema cult, passando a abordar questões psicológicas profunda e existencialistas, e aí, já comecei a perder o interesse….

Eu acho que o objetivo do cinema é criar mundos, materializar coisas fantásticas e nos conduzir por locais que nunca poderíamos estar ou que não existem mesmo. Quando a coisa começa a ficar muito mundo real, dramas cotidiano e sofrimentos humanos, já não funciona mais para mim – afinal de contas, para ver isso chego na janela ou ligo no jornal da tarde. Por exemplo, acho Big Hero 6 um filme absurdamente melhor e mais divertido do que o queridinho da crítica Divertidamente. E Dory tem muito mais a ver com esse último do que com o Nemo.

Eu nunca achei Nemo um filme tão legal assim, então não caí no hype pelo Dory, nem tinha expectativas para o filme – o que acho que foi bom. No original tínhamos um filme de aventura, da busca de um pai pelo filho perdido, que constantemente tinha desafios e corria risco de vida (assim como o Nemo do outro lado). No novo longa em momento algum os personagens têm alguma ameaça real. A vida deles não está em risco, não existe um perigo a ser enfrentado. Todos os problemas são psicológicos, são “ameaças sentimentais”, o que deixa o filme mais lento, e de certa forma bem triste. Eu não consigo ver crianças gostando do filme, como aconteceu com o Nemo. O roteiro além de mais “adulto”, ruma para o cinema paradão. O longa tem piadas, ironias, flashbacks e coisinhas que tentam deixar ele mais leve, mas que não são suficientes para o drama das situações apresentadas. Eu me lembrei muito do Como se Fosse a Primeira Vez – um dos filmes razoáveis do Adam Sandler – onde temos elementos de comédia mascarando situações bem tristes – e acho que o filme do Sandler se sai melhor nisso.

Uma outra mudança, nessa sequência, é o abandono do cuidado como o parecer real que tinham no Nemo. Os bichos fazem coisas e passam por situações que não são possíveis no “mundo real”. Então existe uma quebra com o “universo” estabelecido no primeiro filme, o que eu nunca acho tão inteligente. No lado visual, temos uma melhora em tudo, modelos, animação, variedade de cenários, quantidade de coisas na tela. O curtinha de animação (Pipper) antes do filme está sensacional – arrisco que melhor até que o Dory. Musicalmente o filme é bem fraquinho, e não fiquei com nada da trilha na cabeça, mas o Nemo também foi assim.

A história é o que entregam no trailer: A Dory tentando reencontrar a família perdida a anos, mas diferente de Nemo, como já falei, temos muito menos enfoque na aventura para darem ênfase em questões sentimentais. O trio – sim, o Nemo e o pais estão o tempo todo no filme – vão encontrando outros bichanos pelo caminho, que também tem suas questões, enquanto seguem nessa “missão”.

A melhor coisa do filme são esses personagens secundários (o Polvo eu nem curti tanto) que são responsáveis por todos momentos engraçados, e por andar com a trama. Eles, além dessa camada de alivio cômico, também tem questões a serem resolvidas, que são conduzidas de forma bem suave. De certa forma todo mundo no filme tem um problema a ser superado, uma “deficiência” que precisam ir além. Enquanto as dos coadjuvantes tem soluções ok, a da Dory acaba seguindo uma linha mais preguiçosa do “amor faz milagres” e pronto, aceitem isso aí.

No geral, o filme não é ruim, mas é mais um que segue essa aparente tendência da Pixar em fazer esses filmes pseudocultsintelectuaismodernos mais cerebrais, não tão focados nos jovenzinhos – cade aquela animação moleque, de várzea? hein, dona Pixar?. Eu não levaria nenhuma criança para ver, pois acho que não tem um apelo tão bom pra eles. É bem possível de até entediar os rebentos. Eu vi em uma seção bem tarde, com o filme legendado, então não tenho fatos para dizer como as crianças estão se comportando nas salas. Para os fãs de Nemo, não esperem uma continuação com o mesmo clima. O que é aprestado na tela é completamente – completamente mesmo! –  diferente do primeiro filme.

Eu deixo para Procurando Dory um 6 (de 0 a 10) sendo o bom: a evolução visual; uma história redonda; os personagens de apoio. O ruim: a mudança no tom do universo criado em Nemo; história muito dramática;

 

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